Comportamento: filho único

segunda-feira, 2 de maio de 2011

* Matéria do Site do bebe.com.br
Por Mônica Manir

O número não para de crescer no Brasil e no mundo. Agora que eles são tantos, será que não está na hora de derrubar aquele rótulo de mimado e solitário? Fomos investigar como é a vida hoje de uma criança sem irmãos

Há algumas décadas, filho único era praticamente sinônimo de criança superpaparicada, egoísta, um pequeno tirano que faz gato e sapato dos pais. Em geral, apenas uma razão podia justificar o fato de a família ter parado numa criança só: a impossibilidade de ter outras, quase sempre por infertilidade. Hoje, o filho único está virando opção do casal. Uma opção cada vez mais freqüente, como mostram as estatísticas. Segundo o último censo, realizado em 2000, 9,5 milhões de famílias brasileiras têm um herdeiro só. É um crescimento de 50% em relação ao censo anterior, realizado em 1991. Nos Estados Unidos, mais de 20% das famílias estão na mesma situação. Sem falar na China, que, com sua política de filho único, decretada em 1979, viu mais de 90% das crianças que vivem na área urbana, a maioria meninos, levar sozinhas o nome da família.

Mesmo reconhecendo que não há espaço para mais uma criança em casa, muitos desses pais ainda se perguntam se irmãos fazem falta. Temem que o filho cresça como o estereótipo do passado - mimado, solitário, dependente e consumista de carteirinha. "É preciso rasgar esse rótulo, que só serve para aumentar o preconceito contra o filho único", alerta Ceres Alves de Araujo, psicóloga e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Em primeiro lugar, explica ela, faz diferença ser uma opção e não a alternativa que restou. "Hoje, a criança sabe que os pais até poderiam ter tido outro filho se de fato quisessem", afirma a psicóloga. Isso os deixa mais armados contra uma possível chantagem emocional, do tipo "sou o único que restou, tenho um valor imenso, portanto quero que façam todas as minhas vontades". Demonstrar outros interesses na vida, que não só a criança, também tende a diminuir a maternagem excessiva, a dosar o mimo, impor limites e, por tabela, aumentar a autoridade dos pais dentro de casa.Outro preconceito que foi por água abaixo é a tese de que o filho único é necessariamente uma criança solitária. Para Carolyn White, autora do site americano www.onlychild.com, isso nunca foi verdade. Ela acredita que o filho único é naturalmente mais sociável do que as demais crianças por uma questão de sobrevivência. Explica: quem tem irmãos acaba se acomodando e nem sempre parte para novas amizades. Já o filho único precisa se relacionar com estranhos (e não-estranhos) para conseguir o que quer. "As melhores amigas da Jade na escola e no condomínio não têm irmãos", ressalta a professora de artes Nara Silvane Butturi, 39 anos."Isso faz com que ela se sinta uma criança comum, igual às outras", deduz a mãe. O ingresso cada vez mais precoce na escolinha, saída para pais que trabalham fora de casa, ajuda na sociabilização. "É a oportunidade que a criança tem de aprender a dividir brinquedos, a expressar a raiva, a lidar com o ciúme e a competir por atenção", enumera Annelise Scappaticci, psicanalista infantil e terapeuta familiar.

Irmão geralmente faz bem. Nele se bate, dele se apanha, divide-se com ele o amor dos pais. Mas não pode ser visto como um sacrifício para o casal. O filho único convive bastante com pessoas mais velhas e desenvolve certos raciocínios e habilidades que ultrapassam o que se espera para a idade

Nara acha, no entanto, que pelo menos num aspecto a filha se diferencia de quem teve uma família maior: parece bem mais adulta do que seus quase 11 anos. O.k., os pais de hoje costumam se assustar com frases espertas (e inesperadas) da prole. Mas especialistas no assunto dizem que é comum o filho único mostrar um comportamento adulto já na infância. "Ainda que freqüente a escola logo cedo, ele convive bastante com pessoas mais velhas e desenvolve certos raciocínios e habilidades que ultrapassam o esperado para a idade", afirma a psicóloga Célia Horta. Autor do livro Maybe One: A Personal and Environmental Argument for Single-Child Families (Um, Talvez - Uma Argumentação Pessoal e Ambiental em Favor das Famílias de um Filho Só), o jornalista americano Bill McKibben mergulhou fundo na questão. Pai de uma menina e decidido a não ter mais rebentos, ele foi atrás de pesquisas que mostrassem o que poderia acontecer com o desenvolvimento da filha. Descobriu que, em média, os filhos únicos possuem vocabulário mais avançado, interessam-se mais por matemática, ciência, música e literatura e costumam se sair melhor nos estudos do que os que têm irmãos. "A contrapartida é que se sentem responsáveis pelos pais além da conta, principalmente porque acumulam os títulos de filho único e de filho mais velho", lembra Célia Horta.A preocupação com o futuro dos pais faz todo o sentido. Talvez caia sobre o filho único a tarefa de garantir a tranqüilidade deles quando deixarem de ser economicamente ativos. Vale lembrar que, no Brasil, mais de 50% das pessoas na terceira idade são sustentadas pelos filhos. É por isso que a especialista em educação financeira Cássia D´Aquino propõe orientar o filho único quanto aos gastos desde pequeno. "Qualquer criança precisa aprender a lidar com o dinheiro, mas aquela que não tem irmãos merece atenção especial dos pais, pois está acostumada com o bom e o melhor e nem sempre tem noção de economia", explica. Do ponto de vista financeiro, ela sugere criar o filho único como se tivesse irmãos, não lhe dando presentes fora de época nem turbinando a mesada. Para calcular esse valor, Cássia propõe 1 real por semana e por ano de vida. Algo do tipo 7 anos, 7 reais por semana. Nada mais, com ou sem manha. Birra para ter um irmãozinho também deve ser vista com lupa. "A criança pode estar reproduzindo uma fantasia de conto de fada ou simplesmente tratando o irmão como se fosse mais um produto que quisesse ter em mãos já, agora", adverte Cássia. Irmão geralmente faz bem e passa a idéia de completude; dele se apanha, nele se bate, com ele se divide o colo e o amor dos pais. "Mas um segundo filho não pode ser visto como sacrifício na vida do casal", lembra Ceres Araujo. O ideal seria incluir uma nova criança na família se ela realmente fosse querida por si só. Às vezes, nem isso basta. A maioria dos casais que decidem parar num filho só leva em conta sobretudo as razões financeiras. "Pretendo dar o que há de melhor para o Giovanni e isso custa caro", explica o italiano Domenico Pedato, 32 anos, comerciante em São Paulo. "O governo brasileiro não ajuda os pais a cuidar da saúde e da educação dos filhos, como acontece na Europa, o que nos levou a querer apenas um." A esposa acrescenta outro motivo para ficar só com Giovanni, de apenas 11 meses: "É muito difícil conciliar a atenção a ele com a minha carreira, que também exige dedicação", diz Alessandra De Laurenza, 36 anos, que trabalha em tempo integral como designer gráfica e optou por contratar uma babá para ajudá-la nos cuidados com o menino.

O tempo, ou a falta dele, é outro fator que impulsiona a curva de crescimento dos filhos únicos. Não apenas tempo em número de horas, mas tempo em qualidade de doação. "Viver em função do outro é complicadíssimo hoje em dia", afirma Natércia Tiba, psicodramista e psicóloga de crianças e adolescentes. "Na medida do possível, os pais desejam continuar com o lazer, os cuidados com o corpo e as amizades no paralelo e, se um filho dificulta isso, imagine quando são dois", ressalta ela. Os ponteiros do relógio biológico também interferem na decisão. Apesar de a ciência acenar com facilidades para uma concepção tardia, bate uma certa insegurança de investir numa segunda gestação quando se chega perto dos 40 anos. A publicitária Irene Graciela Vergílio Horta já completou os seus e não pensa em providenciar um irmão para o filho de 3 anos ainda que tenha à disposição um arsenal de exames. "Fiz 36 ultra-sons durante a gravidez do Leonardo porque tinha quase 35 anos, fiquei muito tensa na época e não quero nem pensar em repetir essa experiência", recorda. Quando é cobrada pelos parentes para aumentar a família, responde na esportiva: "Em time que está ganhando não se mexe".

O desafio é dos pais - A psicóloga americana Toni Falbo descobriu que os filhos únicos não têm nada de diferente. Já os pais de uma criança...Na década de 1970, a psicóloga Toni Falbo, da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, decidiu investigar uma questão que, para ela, era quase pessoal: se filho único é problema certo na família. Filha única e mãe de outra filha única, Toni entrevistou 114 famílias com um filho só, apresentou trabalhos e consagrou-se como a maior especialista americana no assunto. Suas conclusões são um alento para quem não pensa em formar famílias numerosas, ao mesmo tempo em que funcionam como um alerta para os pais. Leia a entrevista que ela deu a CLAUDIA BEBÊ por e-mail.

• A associação automática de filho único com criança problemática está mudando?

Não posso garantir que esteja mudando no mundo todo, mas, onde isso ocorre, é reflexo de mudanças na sociedade. Por exemplo, a imagem do filho único permanece negativa onde famílias numerosas são bem-aceitas. Se há uma tendência no sentido de famílias menores, a opção ganha tom positivo.

• Os filhos únicos tendem a ser menos sociáveis do que aqueles que têm irmãos?

Eles estão na média nessa questão. A tendência a ser introvertido ou extrovertido é muito mais influenciada pela genética.

• E como fica a auto-estima?

Nos países ocidentais, os filhos únicos parecem ter níveis-padrão de auto-estima - exatamente como os de outras crianças. Se houver alguma diferença nessa comparação, ela é pequena e a favor dos filhos únicos.

• Quais são os desafios de se educar o filho único?

Como as crianças em geral interagem com outras, seja no playground, seja na pré-escola, os filhos únicos acabam adquirindo a experiência de que necessitam para crescer normalmente. O principal desafio para os pais é não pressionar a criança a ser perfeita, como muitas vezes ocorre.

• O que você diria aos pais que ainda se sentem culpados por não dar um irmão ao filho?

Se eles demonstram algum remorso quanto a isso, o filho vai crescer acreditando que sofreu uma perda importante. Mas, se os pais mudarem o foco para os estudos, o desenvolvimento de valores morais e a vida saudável, a criança não se sentirá mal por não ter irmãos. Em vez disso, terá amigos.

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